sábado, 11 de abril de 2015

A menina e o circo

Quase todos se encantam com o circo.
Quase toda criança já quis fugir com o circo para ser a bailarina, o mágico, o/a equilibrista ou o que quer mais a encantava naquela lona de coisas mirabolantes e encantadoras.
Quem não?

Ela?
Ela sempre se fascinou com o circo. Gostava de ir ao circo, comprar pipoca e/ou algodão doce e deixava se encantar durante toda apresentação. Bem, não toda, se o circo tinha animais ela sempre tinha pena dos animais mais do que qualquer outra coisa e, também, nem todo palhaço era de seu agrado. Já os truques, as piruetas e o inimaginável esses sim tiravam o seu fôlego e ganhavam toda a sua atenção.

Alguns dizem que ela teria sido bailarina.
Ela sempre gostou de dançar.
Quando criança chegou a fazer umas aulas de bale mas parece que aquele rigor todo não era para ela. A dança que ela sabe ela foi aprendendo com o tempo, dançando, imitando a irmã e as primas bailarinas, as amigas e as pessoas dançando.  Ela se divertia dançando e a felicidade sempre é algo bonito de ser ver mas sua dança em si nunca foi grandiosa.

Ela me confessou que queria ter feito ginastica olímpica quando criança.
Talvez ela quisesse mesmo ter tido acrobata...
Ela sempre foi metida a fazer muitas coisas teve um tempo que fez capoeira onde chegou a fazer algumas estripulias mas, no final das contas, ela não foi nada: nem esportista, nem bailarina, nem acrobata, nem nada do tipo...
E assim como tantas outras crianças ela cresceu, estudou e estudou. No fim, ela acabou se encantando com os números e foi parar num mundo bem diferente do circo.  Nos seus dias de estresse ela brincava ter escolhido a profissão errada, que deveria ter sido bailarina para trabalhar dançando e de quebra ter um corpinho em forma. Mas, ela gosta do que faz e ela foi feliz em seu mundinho analítico por algum tempo.

Um dia, eu encontrei aquela menina que neste ponto não era mais tão menina assim e percebi que algo tinha mudado. Ela me deu aquele sorriso de menina com cheiro e pipoca e eu pude ver o circo no brilho dos seus olhos. Ela riu da minha surpresa e me contou como tudo aconteceu.

Ela falou que um dia resolveu que iria aprender algo novo que ela sempre quis mas morria de medo: subir! "Subir?" Indaguei. "Sim, subir (me falou ela fazendo mímicas no ar numa escada imaginaria) ver o mundo de cima". Ela falou que no inicio foi quase que uma terapia mas que era divertido e quando ela menos deu conta já estava lá em cima do picadeiro. Nessas travessias picadeiro a cima ela foi fazendo algumas amizades que ensinaram ela a brincar novamente e foi ai que tudo começou. Ela falou que começou com o jogo de equilíbrio, andando de um lado para outro. "Corda bamba?"(perguntei). Ela me explicou que não exatamente, mas que era algo parecido. Depois ela foi aprendendo outra coisas como acrobacias onde duas, três, quatro pessoas formavam poses. Ela falou que adora ver o mundo de cabeça para baixo, e que poses assim são suas favoritas. Paralelamente as acrobacias grupais ela ja se interessou pela dança aérea em cordas  (que ela me confessou morrer de medo no inicio), pelo trapézio e agora se exibe no tecido acrobático.
Quer dizer que voce seguiu o sonho de criança e fugiu com o circo?
Ela riu e disse que não.
Voce não prestou atenção no que eu estava falando?
"Eu re-aprendi a brincar como criança e aí eu não precisei mais fugir com o circo. A brincadeira abriu as portas para ele e quando menos notei o circo já estava lá!" 

Sim, o circo dela não tem ingresso, não tem plateia, não tem show público, não tem idade, o circo dela é dela para ela. Neste circo ela pode ser a bailarina, a ilusionista, a palhaça, a malabarista, a equilibrista, a contorcionista, a acrobata... ela pode ser qualquer coisa que ela brincar de ser. Ela também pode ser a criança cujo os olhos vão brilhas com aquela magia e se quiser pode ate jogar tomates em si mesma num dia de fúria. Ela pode, só ela pode, o circo é dela, o circo é ela.
Ela já ia saindo quando eu escutei uma melodia. Seria uma banda vindo de dentro dela? 
Notando minha surpresa ela se despediu meio sem graça, avisando... "voce sabe que eu sempre gostei de muitas coisas... "

E eu sabia. Na verdade, se eu não a conhecesse tão bem ela passaria despercebida por mim: mais uma mulher de baixa estatura, vinte e tantos, vestido florido, cabelos ao vento com cara de cansada depois de uma longa jornada. Mas, olhando atentamente, eu a vejo. Ela me lembra que podemos ser criança, que podemos brincar e criar - independente idade. 
Ela só não passa despercebida por mim porque eu sou ela. 

Um comentário:

  1. Que lindeza de texto, eu só posso aplaudir essa moça que pode ser todas as coisas do mundo e ainda ser criança!! Bjão daqui da platéia. Laís

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