Olá pessoas da minha vida, sei que estou devendo um longo boletim com vários e vários fatos ocorridos pois faz um milênio que não escrevo. Este boletim esta em andamento e deve sair em breve mas já tinha escrito essa seção e ao ver que ficou tão longa resolvi publicar separado.
Vai um pouco de Lar@ mas podem aguardar um ainda longo boletão para os próximo dias...
Lar@Sonho.Americano?
Outro dia peguei um táxi no qual o taxista vinha conversando. Ele tentou puxar assunto, perguntou de onde eu era mas acho que ele queria mesmo era falar e assim fui dando espaço. Ele era do Haiti e já mora aqui há algum tempo mas foi a pergunta se eu pretendia voltar para casa abriu espaço um discurso que me deixou a pensar, ele falava sobre o "sonho americano".
Ele dizia que sim, aqui era uma terra de oportunidades, que tinham coisas boas mas me disse algo como: "Olhe bem para os lados você acha que eles são felizes assim? Se você pega o metro de manhã cedo as pessoas estão assim (e me fez uma cara de cansaço, tédio e insatisfação) no final do dia assim como ao longo do dia é a mesma coisa. De segunda a sexta estão todos sempre assim sábado as vezes você vê umas caras melhores... Você fala com eles e eles vão ser legais ('ok, nice') e vão dizer que esta tudo bem mas eles são superficiais (só fachada). E pior, tem muitos que trabalham apenas para pagar as contas, trabalham, trabalham, pagam as coisas e é só isso. Eu sinto muito falta do meu país as pessoas lá parecem ser mais felizes mesmo como as dificuldades. É assim também no Brasil, não? Eu era professor de física lá, sinto muito falta do que eu fazia, de ver os meninos aprendendo aqui eu só posso trabalhar no táxi... Conheço muitos estrangeiros que vem para cá buscar oportunidades e também acham isso - que não são tão felizes aqui - mas acabam se acostumando e não sabem (conseguem) voltar. Mas você é brasileira, os brasileiros são diferentes são os únicos que eu ainda acredito quando dizem que vão voltar, já tive vários amigos do Brasil que voltaram depois de anos."
Para mim o problema é um pouco mais complexo e talvez sem uma conclusão trivial...
Eu, por exemplo, acho que muitos estrangeiros (principalmente de países sub-desenvolvidos) tem esse ideia que aqui se é feliz e que tudo é muito bom e não é bem assim mesmo... mas parte desse problema é bem mais generalizado do que gostaríamos. Eu acho que em muitas cidades encontramos pessoas que parecem viver para trabalhar (e pagar as contas) e muitas vezes sequer trabalhar com prazer. (Onde não?) Até me lembrei dessas frases que vira-volta vemos circulando por aí: "Viver é uma das coisas mais raras a maioria das pessoas só existe".
Temos que considerar também o fator cultural, em Boston, particularmente, eu sempre achei as pessoas mais apáticas, são bem educadas em geral mas a interação é minima em ambientes públicos como metro/ônibus. Isso foi algo, inclusive, que notei muita diferença no início mas, quem sou eu para dizer que esse modo de ser (hábito cultural) é ruim ou bom (feliz ou infeliz) por si só? O que digo é que é bem diferente e me faz sentir as vezes falta de mais calor humano...
Não podemos deixar de descartar também o fator social, aqui talvez tenham mais oportunidades mas nem todas estão disponíveis para todos... existe uma certa mobilidade social, existe (em geral) mais qualidade de vida mesmo para a base de pirâmide de trabalho e eu tenho que a pobreza americana em geral não é miserável (como muitas vezes é a brasileira ou de outros países de terceiro mundo) mas a população mais rica ainda desfruta das melhores oportunidades... as oportunidades que eu tenho aqui, por exemplo, devem ser bem diferentes (não estou falando apenas de dinheiro - possivelmente ele ganha tanto ou mais que eu) da dele...
O discurso do taxista me lembrou outras discussões que presenciei/participei recentemente. Uma delas foi em uma palestra do grupo de brasileiros estudando ou pesquisando em Boston na fala de um pesquisador que tinha uma plataforma para tentar conectar e coletar informações sobre os brasileiros vivendo no exterior. Entre vários, fatos números e afins ele relatou que numa pesquisa feita com latinos (não apenas brasileiros) perguntava-se as mulheres por que elas não queriam voltar ao seu país de origem e uma das principais queixas delas eram os homens de lá. A ideia disso circula sobre algo como depois de viver numa sociedade menos machista como a americana para muitas mulheres é difícil voltar a querer se relacionar com homens tão machistas como em sua cultura de origem (e que esses imigrantes geram de certa maneira por voltarem ou propagarem experiência vividas um fator de mudança cultural)...
Esse relato me lembrou de uma postagem que li de blog de uma brasileira vivendo na Espanha sobre o desinteresse dela em querer voltar e lembro que uma das queixas dela era que os brasileiros prezam mais a ostentação que a qualidade de vida em si...
Outra discussão que tive foi com alguns estudantes que conheci num congresso aqui em Boston. Saímos um dia para jantar e eles vieram a tona com a perguntar "por que você resolveu estudar aqui?" - ambos estudam sendo um Suíço e uma Russa. Eu falei que era uma longa história, que eu pretendia estudar fora mas que minhas maiores pretensões eram para Europa e que esse era até o meu plano inicial (até porque eu tinha lá meus preconceitos com aqui). Mas por questões de oportunidades e de achar que seria uma boa opção eu tive que dar minha decisão final de vir para cá antes mesmo de aplicar para as instituições europeias. Falado isso eles começaram a me interrogar sobre o porquê do meu preconceito inicial e de me confessar também o deles... Eu falei que me surpreendi muito com aqui e que conheci muito mais gente interessante que eu esperava e que realmente gosto da experiência que tenho tido. Daí eles (principalmente ela) me falou que achava os americanos superficiais que eles falavam e interagiam o mínimo necessário para ficar 'ok', que eles só se preocupam com eles, com os problemas deles, com a histórias deles e com a cultura deles. Depois a conversa entrou um pouco sobre como a mídia americana explora e dramatiza alguns fatos e como isso seria até 'ok' dentro dos EUA (afinal a dor sempre é maior quando se trata dos seus) mas que isso é meio que ridículo quando exportado (como acontece no Brasil - que sofre horrores pelas 3 mortes da Maratona de Boston e passa indiferente com a explosão de uma fabrica que matou mais centenas no mesmo dia ou outras tragédias internacionais). Ah! Na última reunião dos pesquisadores brasileiros um cientista político também levantou a discussão da mídia e seu hábito de vender (chafurdar) sobre certos acontecimentos...
Aonde quero chegar com tudo isso?
Enfim, talvez como quase tudo na vida a experiência que você leva/tem aqui ou onde quer que seja é consequência de suas escolhas, do que você quer/gostaria de ter na sua balança. Eu gosto da mistureba cultural que eu tenho aqui em Boston, gosto de me sentir mais segura para ir e vir, gosto de poder andar de bike pela cidade (muito melhor que pegar um metro quase sempre cheio com caras insatisfeitas, não?), de ter mais tempo e opções de investir em qualidade de vida, de não precisar ficar levantando bandeiras sobre feminismo ou homofobia porque muitos já absorveram isso ou respeitam mais naturalmente (ao menos no meio que circulo), etc. Sei que eu trabalho bastante mas que eu tento não viver só para pagar minhas contas, que tem gente de tudo que é tipo em todos os lugares mas que de certa maneira eu posso "escolher" quem eu quero ter por perto... Mas, isso não é tudo: eu sinto falta da minha família, dos meus amigos, do calor da minha terra, das comidas e danças... da minha cultura que é muito mais calorosa que a que vejo aqui. Se por um lado eu já me sinto em Boston por outro eu pareço nunca me encaixar...
Mas, os braços são curtos e não podemos abraçar o mundo...
Cada realidade tem coisas diferentes e isso não significa que precisamos nos conformar com o fato que não teremos tudo pois possivelmente há espaço para se ter um pouco mais (nunca vai ser tudo)... eu mesmo sou teimosa do meu jeito e com alguns dos meus amigos americanos e já cheguei a dizer quando eles dizem que eu não posso mudar a cultura deles (pois eu questiono a cultura do "eu não ligo" deles as vezes) eu retruco que nem eles a minha (ou seja ou continuando "ligando" para certas coisas). Me vejo como mais calorosa ou como alguns deles me descrevem mais "entusiasmada" com a vida. Sou sonhadora e as vezes me pego imaginando como coisas que gosto daqui seriam ótimas se tivéssemos pelo Brasil (transporte público decente, ciclovias, sociedade menos machistas, etc)...
Mas no final o que vejo é que riquezas, oportunidades e qualidade de vida não são sinônimos de felicidade mas num país onde lutamos tanto por isso parece ser bem mais fácil ser feliz com elas, não? Numa conversa que tive com meu amigo suíço ele quase parecia me responder que não... "Você sabia que na Suíça temos uma das maiores taxas de depressão?" Infelizmente (ou felizmente mostra que sou minimamente informada) eu sabia. Ele falou que ainda criança (10 anos) ele começou a pensar coisas como eu "tem tantas pessoas com tão menos oportunidades que eu que eu preciso ser bom..." (pressão de auto-consciência social). Os suíços trabalham muito e pelo visto que se cobram muito por terem tantas oportunidades... meu amigo não reclamava de barriga cheia mas eu entendi o que ele queria dizer pois eu sempre achei (e eles meio que diziam isso também) que dado a boa educação que meus pais me davam/dão ser uma razoável/boa aluna não era mais do que minha obrigação... no final eu tentei descontrair com "Mas como é possível num país com chocolate tão bom as pessoas não serem super felizes?". Ele riu como quem entendeu minha complacência e disse algo como "no final das contas somos todos mais parecidos do que imaginávamos, somos humanos".
A sensação de segurança e a organização em geral (principalmente no transporte) são as coisas que sinto mais falta da época do sanduíche. Mas no fundo, assim como você mencionou, eu sinto como nunca fosse me encaixar em um outro lugar. Ainda que volta e meia eu me pegue com inveja dos amigos no exterior, eu ainda acho que o melhor pra mim é ficar por aqui :)
ResponderExcluirLara, vc é a nerd mais socióloga que já vi!
ResponderExcluirLuísa
Esbocei uma história gigantesca para apresentar a minha opinião, mas apaguei.
ResponderExcluirPenso que cada um tem suas prioridades e preferências...
É interessante ver o quão diferente eu sou da maioria dos Brasileiros. E apesar disso, eu entendo perfeitamente o posicionamento dos mesmos e respeito a opção alheia.
Como eu sempre digo, é uma questão de experiência pessoal. Cada um sabe o que é melhor para si mesmo... Sem preconceitos e com muito respeito. :-)
Pois Renato eu vou gostaria de saber a história gigantesca pois acho que você apagou tanta coisa que no final eu quase não entendi (só a parte do discordar) o ponto do seu comentário. =)
ResponderExcluirEntão... (desculpe-me o atraso na resposta). Penso que o fato de eu ser nipo-brasileiro me dá uma perspectiva diferente quanto ao que eu considero "meu país". Nasci no Brasil e vivi lá por 32 anos. E apesar disso, sempre me senti deslocado, pois muitas coisas no Brasil não se alinham com o que eu sinto ou penso.
ResponderExcluirSei que eu também não conseguiria me adaptar ao Japão de hoje em dia. Ainda há grande preconceito por lá contra as famílias japonesas que saíram do Japão na época da crise do início do século XX. E maior preconceito contra quem é japonês e não sabe se expressar corretamente em japonês (o que é o meu caso).
Aqui em Boston eu encontrei o meu lugar. Pessoas com o mesmo 'mindset' que o meu (como você mesmo citou: mais 'open-minded' para as coisas que acontecem no mundo) e que me respeitam. Uma vida que flui mais harmoniosamente com o meu estilo de vida.
Não acho que os americanos sejam mais frios. Eles são mais reservados e respeitosos, e penso que meu lado nipônico aprecia isso.
Passeando com a minha filha no supermercado local da pequeníssima cidade onde moro, várias pessoas sorriem para mim e me cumprimentam ao ver minha filha em meu colo. Talvez eles precisem de um motivo para se aproximar e serem mais abertos (no meu caso, eu conversando com a minha filha de 7 meses a tiracolo dentro do supermercado torna-se um catalisador).
Além disso, eles só se pronunciam quando realmente querem dizer algo e quando você dá espaço. Se você não dá essa abertura, eles não se aproximam. Ou seja, eles esperam que eu dê um sinal (um sorriso, ou um 'aceno' com os bracinhos da minha filha) para se aproximar e falar algo. Caso contrário, eles mantém a distância e respeitam a minha privacidade (e da minha família).
Eles não vão me achar antipático por não dar trela. Simplesmente eles vão entender que, naquele momento, eu estou mais reservado.
No Brasil, o povo já acharia que eu sou antipático ou anti-social, o que não é o caso.
Simplesmente, às vezes, eu quero a minha privacidade e não quero ser interrompido. E, no Brasil, a maioria das pessoas interpreta isso como frieza ou antipatia.
Bom, tudo isso foi para dizer que a diferença cultural é perceptível e que, uma vez compreendida essa diferença, percebe-se que o americano não é frio.
Não me lembro onde li, mas havia um texto que dizia que o brasileiro convida todo mundo para um cafezinho em casa. Mas ele o faz por pura "cordialidade" (entre aspas, pois para mim é uma cordialidade questionável), sem realmente ter a intenção de convidar a pessoa. O americano, por sua vez, quando convida alguém para sua casa é porque ele REALMENTE quer que você vá.
Se o brasileiro não convida um outro brasileiro para o cafezinho, geralmente essa segunda pessoa se sente "rejeitada". Se o americano não convida outro americano, está tudo bem, não tem drama (i.e. não significa que ele não gosta da outra pessoa, ou melhor, não significa nada).
Talvez o americano médio seja mais prático e não dramatiza muito sobre o comportamento alheio. Por isso, temos a tendência de achá-los frios.
E, novamente, talvez por ter ascendência nipônica (com background latino), eu esteja mais alinhado com os americanos. Eles não são TÃO extrovertidos quanto os brasileiros e nem tão introvertidos quanto os japoneses.
Outra coisa: família e amigos, sim, sente-se a falta deles. Mas hoje em dia, a tecnologia nos permite encurtar distâncias. E para ser sincero, eu tenho MAIS contato com meus amigos e família vivendo aqui nos EUA do que quando eu vivia em SP.
Renato, agora eu entendi o seu ponto de vista, bem interessante por sinal. Obrigada!
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