domingo, 15 de março de 2015

O taxista

Chovia fino e eu estava mais uma vez atrasada.
Cumprimentei o taxista e fui tentando entrar no taxi com bolsa, vinho, torta, violão e tudo mais que seriam necessário para os dois aniversários que iria naquela noite.
Ele educadamente me perguntou se eu precisava por algo do porta malas, respondi que não ja ajeitando meus pertences no banco do carro.
A conversa começou como muitas conversas de taxi começam comigo:
- Fala espanhol?
- Entendo mas, não falo muito.
- De onde voce é?
- Brasil, e voce?
- Republica Dominicana.
Mas, a curiosidade dele era outra:
- O que é isso?
- Um violão.
- Voce toca?
- Um pouco.
- Toca a quanto tempo?
Parei, pensei e suspirei como quem não quer calcular todo o tempo percorrido desde meus primeiros acordes
- Uns 10 anos.
- Então voce não toca só um pouco.
- Bem, é que eu não nunca me dediquei tanto.
- E voce canta também?
- Um pouco.
- Um pouco, um pouco, um pouco... (ele fez graça das minhas respostas).
Mas, foi aí que a historia realmente começou.
Ele me falou que sempre fora apaixonado pela musica. Que todos os dias quando ele termina de trabalhar ele tem o momento dele no qual ele para o carro num lugar calmo e canta musicas de karaoke. Que ele sempre gostou de cantar e que quando era criança chegou a participar de competições. Ele disse que queria ter sido um musico profissional mas que como era de uma família muito pobre os seus pais não tinham dinheiro para que ele estudasse musica. Mas que ainda quer aprender a tocar violão. Não, ele não quer mais ser mais musico profissional (disse estar velho para isso) mas, ele se sente triste por não conseguir expressar suas musicas. Que ele realmente gosta de compor musicas: letras e arranjos. Dai eu falei que sempre tive problemas para criar minhas musicas e ele quase sem acreditar no que eu falava me indagava: "Mas voce sabe tocar? Então, é so expressar algo que esteja acontecendo com voce e, tchum, compõe-se a musica. Ok, ele não falou "tchum" mas, ficou claro como compor é natural para ele. Ele disse ser uma pessoa muito romântica e que gosta de compor sobre coisas ao redor dele, coisas que ele viveu. Ele falou que uma vez escreveu uma musica sobre uma prostituta que todos se derretiam por ela, mas ele não. E, assim, me pediu licença para cantar. A musica bem entoada na qual eu não lembro mais quase nada era bonita e a letra comparava o amor da prostituta com o vento que é gostoso quando bate mas, que não se pode ter.
Elogiei o talentoso taxista que retomou a dizer que iria aprender violão, não para ser profissional mas, para ele mesmo, para acompanhar/expressar suas composições. Voce sabe, um musico de verdade satisfaz sobretudo a sua própria alma, a satisfação dos outros vem como consequência.
E assim o espirituoso taxista me deixou no meu destino: feliz por ver como existe talento nesse mundo e triste por ver a realidade - talento sem oportunidade vira sonho.

Um comentário:

  1. Minha alminha musical deu um dó com voz embargada, seguido de um lá lá lá... emocionada com a história do taxista.
    Ao menos não está sozinho quem tem a música de companheira, mesmo que não se saiba tocar violão.
    Saudações musicais, Lara! Bjs. Lena

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