segunda-feira, 6 de março de 2017

Dona Rita

Dona Rita foi mais um adeus que eu não pude dar.
Sabe como é: a distancia, a vida corrida nas visitas, e assim já fazia alguns anos que eu não a via.

Soube da noticia pela manhã, fiquei triste mas segui minha rotina. Foi ainda a pouco falava com um amigo e ao compartilhar a noticias comentei "não sei se você lembra de Dona Rita..." e foi assim que eu também fui me lembrando...

Dona Rita foi a senhora que trabalhou lá em casa durante minha infância e basicamente todas as minhas memórias de infância com alguém em casa além da minha familia são com ela. Mas memória é algo engraçado, hoje tentando lembrar as coisas vieram em fragmentos misturando lembranças com pensamentos mais maduros meus.

Lembro do me queixar do seu quase constante mau humor e reclamações. Hoje penso na vida dura dela e a trabalheira que era deixar uma casa com quatro crianças/adolescentes arrumada e o quanto coube a ela reclamar que eu deixava sujeira depois de "picotar" papel, deixava coisas/brinquedos fora do lugar, não arrumava o quarto, etc e tal. A memória que ainda tenho do "cheiro do final do ano" era da super limpeza que ela fazia questão de fazer na casa antes das festividades. Ela também reclamava se chamávamos alguém para almoçar sem avisar mas apenas porque ela gostava de caprichar no almoço quando tínhamos visitas ou para garantir que teria comida suficiente (sem apertos) para todos.

Ela era uma mulher simples do interior (São Tomé), sem estudos mas de extremo bom caracter.
Tinha uma vida dura de mãe solteira e se orgulhava da casa que possuía em Felipe Camarão. Desta casa lembro de uma visita que fizemos eu (ainda criança com uns 7-9 anos), meu pai e acho que também minhas irmãs que ao me mostrar a casa eu naturalmente (sem sentido de ofender/constranger) falei "Que casa pequena!". A frase seguiu por olhares fulminantes para o meu lado dos demais, um pedido de desculpas meus e a simplicidade dela em dizer algo como "não é ofensa não, é pequena mesma mas é minha".

Lembro dela reclamando da minha farda amassada, de eu ir fazer capoeira menstruada (de acordo com ela capoeira não era sequer muito negócio de menina e jogar capoeira menstruada podia "incruar" o sangue), de eu ficar dormindo até tarde, de não sair de frente da televisão, de não querer ir atender o telefone ou a campainha. Foi com ela que eu tive meu único sonho deja-vu que de tanto que me impressionou me lembro até hoje: "Eu acordava e como não queria ficar na cama a manhã inteira (eu estudava a tarde nesse época) eu me levantada e ia deitar na rede da varanda. Meio dorminhocando, eu escutava o barulho do portão e eu me levantada para abrir o cadeado para Dona Rita (ela tinha a chave mas é tão bom quando alguém abre o portão para a gente que eu fazia de quando em quando). Eu abria o portão e dizia 'Bom dia! Tudo bom?' e ela começava a resmungar em seguida (algo como 'bom dia nada, bla bla bla...')" .  Puff - eu acordei do sonho. Meio sonolenta resolvi ir para a rede. Ouvi o barulho do portão. Me levantei peguei a chave e alguns segundo antes de dizer o "bom dia" o sonho me veio a cabeça eu fiquei em choque não disse nada e voltei para rede.

Lembro dela contando algumas historias da época que trabalhava como camareira num motel - que eles não eram lá muitos limpos. Lembro dela reclamando de dores nas pernas, nas costas, dos ônibus lotado, da chuva e o caos que se tornava a cidade. Lembro do cheiro de colônia que ela deixava no ao sair. (Lá em casa não tinha quarto de empregada então ela tinha uma partezinha no nosso guarda roupa para deixar as suas coisas e o cheiro ficava por lá também).

Mas, mesmo não sendo a pessoa bem mais humorada do mundo quando eu penso nela hoje (apesar das muitas memórias de reclamação) eu penso no zelo que ela tinha pela minha casa,  por esse papel meio que "maternal" que ela teve na minha história,  pelo amor/carinho que ela tinha por mim e a minha familia. Lembro que ela admirava o quanto nos éramos estudiosos. Eu lembro das comidas simples ("comidas do interior") como cuscus ou canjica que ela fazia como ninguém. Eu penso como batalhadora ela foi nessa vida dura criando a filha, ajudando a familia no interior, e posteriormente ajudando a criar os netos (e chegou a ter/conhecer bisneto(s)).

Não pude deixar o meu adeus mas em pensamentos eu digo:
"Dona Rita, obrigada por tudo e descance em paz."


*****

Compartilhando essa mensagem com o pessoal de casa surgiram mais alguns relatos (e fotos) que vou aqui acrescentar para ficar também registrado.















"Emocionada aqui Lara... várias coisas que vc escreveu eu lembrei também quando soube da morte dela e outras lembrei agora lendo vc, como do cheiro do perfume que ficava no quarto e a implicação dela com a menstruação.
Dias desses aqui em Manaus comendo a tal "bôla" lembrei do pão caseiro de dona Rita, pois senti o gostinho que fica do fermento biológico.
Outra comida que lembro que ela fazia era um creme de galinha com ervilha e milho e com os pedaços de frango grandes, não era delicado como o de Rita de vovó e eu passei a vida comparando que o da casa de vovó era melhor. Pois um dia desses me veio à memória o gosto do de dona Rita e tive saudade. 
Nessa parte da comida ela tentava de alguma forma agradar a cada um, Daniel sempre tinha a carne torrada dele. 
Da morte dela o que fiquei pensando foi a contradição dela ter cuidado tanto da irmã e final ter ido primeiro.
Fiquei com pena de não ter nenhuma foto com ela.
E fiquei feliz de pensar que mamãe de alguma forma sempre se manteve ajudando a família de dona Rita, obrigada mãe por isso."

 "Eu também pensei nos sabores das comidas que ela nos preparava                        
   Nos cremes que ela passava no rosto                        
   E nas histórias                        
   Sao tantas                        
   Uma triste era a da calcinha                        
   Ela me contou que numa época                         
   So tinha uma                        
   Usava de dia e lavava a noite"


"Ela dizia que éramos os filhos dela"

" Sabe o que me deixa triste? Saber que dona Rita era tão simples que passou mal e não nos pediu socorro... :,(                        
Eu chorei tanto                        
Lembrando dela                        
Os beijos da Xuxa que ela as vezes deixava nas bochechas da gente quando ia embora ..."


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